Canais

Ah, estas ferramentas dando a falsa sensação de distâncias mitigadas… nossa sanidade por um fio… nunca pensei, eu, que sempre amei as palavras, que elas seriam elos, os únicos, com pessoas que só em sonhos eu conheceria…  Estas novas tecnologias pariram uma série de aberrações que ainda estão sendo investigadas e que me assombram diariamente. Entre elas, a amizade virtual, o abraço e o beijo virtuais, este último geralmente abreviado, o sexo virtual. O orgasmo em Caps Lock, assim como a raiva, a grosseria. Mas também a doçura derramada pra além mar. Doces ilusões… No mais, aqui, até o que era pra ser secreto, íntimo, se torna público, compartilhado – é o caso destes meus solilóquios. Nossa curiosidade espreita da janela, como sempre fizemos, ao longo dos séculos; só que, agora, de modo amplificado: nossa maledicência, nossas paixões, nossa solidão, nossas buscas tresloucadas… Aliás, o que você veio buscar aqui, caro(a) leitor(a) desavisado(a)?

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Fio da meada

Enfileirados pra votar, como bandeirolas recortadas de revistas coloridas atravessando o pátio da escola: cada um com sua cor, seu conteúdo, unidos pelo mesmo fio invisível. Era quase hora do almoço quando saí da minha casa, de mãos dadas com a esperança, essa bobagem que só os humanos acalentam, essa tolice que inventamos e sem qual a vida é impossível. Em fila indiana, libertários, reacionários, machistas, progressistas, debochados, céticos, crédulos, indefinidos, caminhamos, traídos pelas mesmas ciladas. Miramos no que vemos e acertamos no que não vemos, armadilhas do nosso moderníssimo sistema eleitoral: eleição proporcional, direito compulsório ao voto, coligações inexplicáveis. A biometria dando pau em sua estreia, as filas serpenteando em direção à porta de uma sala de aula; pintura do teto descascando, as janelas sem cortinas, alguns vidros quebrados, infiltração, descuido. Não é aqui que tudo começa, onde nos falaram sobre os três poderes, democracia representativa, sufrágio? Olha esta escola! Eu observava o desalento estrutural de longa data, quando chegou minha vez: entrego meu título de eleitor e meu documento de identificação, a mesária confere o nome na lista, assino, deposito meu polegar sobre o leitor e sou reconhecida, de pronto (alguns tiveram de tentar os outros dedos)… confirmo meu protesto, meu grito mudo. Saio, resvalo a fileira de gente, em sentido contrário. Um a um, a democracia vai desfiando o seu rosário; cada um de nós, uma conta, um elo no fio da trama. Esperamos a apuração – a mais rápida do planeta – e ficamos com uma dúvida: o fio que nos prende anda esgarçado, ou somos todos uns pândegos? Mais de um milhão de votos pra um palhaço! E nem é este o problema; poderia até ser emblemático, se não fosse pelo “quociente eleitoral”. Alguém precisa pacientemente nos explicar que é assim: você vota na Chapeuzinho Vermelho e acaba elegendo o Lobo Mal. Pra onde correr? Por enquanto, para casa, conferir o estrago. A vantagem é que é rápido, quase indolor. Antes do que pensamos, voltamos à normalidade das nossas vidas. Afinal, o que é a política, na ordem do dia?

Acabei de tomar chuva

Acabei de tomar chuva, algo inusitado, em meu atual estado de tempo. Por mais trivial que possa ser, para uma mulher adulta, um contratempo destes exige certo ar de desconforto e contrição. No esforço em fingir pressa, me atrapalhei toda e bati com a cabeça na quina da porta do carro, ao desembarcar, pontual, para um dia chuvoso. Que tempo horroroso, hein!? Pois é… acedi, deixando desfalecer até níveis aceitáveis a excitação de dirigir meu carro velho, sem desembaçador de para-brisas, contra a torrente, sob relâmpagos, por ruas semi-alagadas. Não deveria confessar, mas às vezes lamento chegar ao destino. Desejo da eterna estrada, síndrome de Kerouac, numa mulher da minha idade, sobretudo numa mulher, não fica bem. Tirei o casaquinho e fui ao banheiro secar meu rosto com papel toalha. Fiquei precariamente apresentável. Por sorte, não uso maquiagem. Não sei ao certo em que momento da minha vida me foi tacitamente proibido me divertir na chuva. Cheguei a erguer o rosto contra a precipitação, em pleno estacionamento, constrangida. Estou pra lá do meio do caminho entre a infância e a velhice. Ambos estão no limiar da loucura, podem precisar de fraldas e de alguém que lhes limpe o traseiro, mas o que diferencia os velhos das crianças é que elas podem brincar na chuva. Por isso, sei que estou pra lá do meio. A não ser, agorinha mesmo, no estacionamento, com a cara pra cima, extraordinária.

Por que me ufano do meu país?

A derrota acachapante da seleção brasileira para a Alemanha parece ter deixado atordoada toda uma nação à procura da própria identidade: país do futebol?  Tsc, parecia que acabávamos de ser apresentados à bola! “O” país do futebol passou a “um” país que aprecia futebol, entre outras coisas… aquilo que nos identifica deveria ser a coisa em que somos melhores, em que nos especializamos, a que dedicamos a maior parte do nosso tempo, aquilo a que se direciona nosso interesse? É isto? (não se atreva a dizer bunda ou novela) deixa ver… samba? não… aqui no sul, só pela tevê ou na internet, quando dá saudade de um daqueles clássicos… o velho Adoniran e por aí… Por falar em samba, tem aquele do Chico… “Deus é um cara gozador/adora brincadeira/pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro/ Mas achou muito engraçado me botar cabreiro/ na barriga da miséria, nasci brasileiro”… você cantarolou, eu sei, como eu, que não nasci para o samba, nem nele me criei. Pois é… quem irá nos restituir a glória? O futebol anda metido com outros interesses, o samba está restrito ao carnaval e à nostalgia da memória, a garota de Ipanema desceu do outdoor onírico do nosso imaginário a tempo de tomar o coletivo lotado. Sem a ginga e o doce balanço, resta pensar em algo que nos una e que condense nosso orgulho nacional. Eu disse a uma amiga que o meu passa longe dos gramados; depois, fiquei matutando: e vai pra onde? Isso me remete ao poema concreto “Olímpica”, do Zé Paulo Paes:

ufa ufa ufa ufa
por ufa ufa ufa
ufa que ufa  ufa
ufa  ufa me ufa
ufa  ufa  ufa ufa
no  ufa  ufa  ufa
ufa  do  ufa  ufa 

ufa   ufa  meu  pa
ufa   ufa  ufa  pa
ís   ufa   uff    fff

Afinal, por que me ufano do meu país? Porque me ufano! e pronto? ufa… isso inda me cansa… sabe o que seria um sonho? Se nos irmanasse a consciência política… e a alegria, claro, esta, de nascença (seriam compatíveis?): “O Brasil? ah, sim, aquele país politicamente feliz da América do Sul…”

A taça do mundo é nossa?

2014, Copa do Mundo no Brasil, só se fala de futebol, certo? Não, claro que não. Nem só de futebol vive essa nação. Nem só de bola é feita a Copa do Mundo. Temos a bunda do Hulk, coisificada pelas mulheres, bradaram alguns. Mas, gente, a coisa está lá, pra quem quiser ver, enorme, grudada no calção pelo suor que faz a peleja parecer um show da camiseta molhada. No caso, a indumentária ainda traz as cores da nação, o ufanismo escorrendo pelos músculos tesos do moçoilo. Mulheres: quem melhor que elas pra entender de coisificação? Tão cobiçadas por nossos ilustres visitantes, que uma prostituta no calçadão de Copacabana disse ao repórter que ganhava, por noite, uma quantia lá que eu nem vou mencionar: maior que o salário mensal de uma professora. E um programa de tevê pretendia promover o encontro (romântico?) de uma carioca solteira com um gringo; um lindo encontro amoroso que, de início vertical, dada a inferioridade pressuposta imputada à candidata pela polêmica gerada, terminaria na horizontal, certamente. Será que somos só bunda, gente? Isto está para um açougue a céu aberto? Seja como for, ao que parece, o contato com outras nações atiça nosso rodriguiano complexo de vira-latas. Veja você, que cena linda, os japoneses recolhendo o próprio lixo nas arquibancadas! Aquilo nos apequenando, esfregando em nossas fuças o feio hábito de atirar ou abandonar nossos detritos em qualquer lugar. Uma amiga minha postou em uma rede social a imagem da exibicionista demonstração de super-boaeducação com a legenda: isso é que é povo de primeiro mundo! Até que alguém lembrou que os japoneses são grandes produtores de entulho eletro-eletrônico, o que trouxe à tona a coisa do o consumismo e da tão propalada obsolescência programada. Se eles já nascem com um smartphone nas mãos que é substituído de tempos em tempos por outro aparelho mais moderno, imagina… Deixam qualquer sonho tupiniquim de ostentação no chinelo. Pronto! Ficamos empatados: Brasil 1×1 Japão. Ufa! Foi por pouco!  Seria um trabalhão mudar o gesto de atirar a embalagem vazia pela janela do carro ou do coletivo, sair da sala de cinema, que já é escura pra ninguém ver o que fazemos, sem deixar nosso rastro; aliás, ir embora deste mundo sem perpetuar nossa passagem! É, um evento deste porte só poderia mesmo mostrar, não ao mundo, mas a nós mesmos, nosso pior e nosso melhor. A primeira lista não caberia aqui. A segunda, é melhor um gringo fazer. Eles não sabem, mas quando estiverem em sua terra natal contando as amazing stories from Brazil, nós, os da Silva, estaremos às voltas com montanhas de lixo, elefantes brancos e o maior desafio de todos: arrumar a casa, não pra inglês ver, mas pra quem vai ficar, ou chegar depois. Eleições 2014: só se falará disso, certo?

Qual é seu estilo?

Qual é seu estilo literário? foi a primeira pergunta de uma entrevista para a publicação de uns contos meus. Quando relutei em participar do projeto “Retratos” alegando não ser boa com temas fixos e prazos estabelecidos, a editora sugeriu, condescendente, reunir textos já escritos com uma linha em comum, que se encaixassem no tema. Topei. Agora, estilo literário? Como assim?, estaquei; e eu lá tenho estilo? e eu lá faço literatura? e o questionário esperando resposta. Fiz como no vestibular: comecei pelas que eu (achava que) sabia. Depois, cadeira giratória de um lado pro outro e xícara de café na mão, voltei ao ponto inicial e derradeiro e, tomada da minha honestidade seletiva, respondi simplesmente: não sei. E ponto. E os dias se passaram, como passam meus dias (o que não vem ao caso agora). Mas, por um motivo ou outro, voltei à questão; revisitei os anos da faculdade, remexi uns livros maculados por anotações a lápis e marcadores de texto: Terry Ealgleton, Antony Burguess, Antônio Cândido, Umberto Eco… O que vem a ser exatamente estilo literário? Primeiro seria preciso estabelecer o que é literário e se eu poderia me arvorar a tanto. Não, nem pense nisso! dirão os mestres e os críticos. E por que não? dirão os visionários de uma época em que qualquer João Ninguém será lido por centenas de leitores libertos, como os primeiros protestantes, da leitura e análise alheias; os críticos com suas balizas obsoletas, diante de uma legião de pretensos escritores e leitores indiferentes aos seus vaticínios; cantando e andando para as suas definições. Por fim, resta entender o que é estilo (e é preciso não confundir com gênero) literário. E, como quem não tem espelho em casa, pedi socorro a um meu amigo: prosa poética, com certeza, prosa poética, ressaltou por e-mail (e eu, que sou desconfiada por natureza e destino, achei o tom meio irônico). Eu disse que a resposta veio tarde, porque já havia escancarado meu auto-desconhecimento. Bem, minha resposta não acrescenta nada à sua, cacetou o cretino (desculpe, meu querido, sem ofensa). De fato, escrevo em prosa e me arrisco lá por umas alegorias bobinhas, uma ou outra construção imagética, tentativas nem sempre frutíferas de arrastar o pensamento e a imaginação do leitor, de acossá-lo ou fazer-lhe cócegas, quando muito. Sem falsa modéstia, mas tenho noção da minha insignificância e horror de que um dia a Literatura propriamente dita, com L maiúsculo, desça tão baixo pra caber numa escrita despretensiosa e capenga como a minha. Mas, à merda com toda a parafernália teórica; a língua é o palco da minha irrelevância (vá para o mesmo lugar, você também, Saussure) e a linguagem é o modo como me apresento; faço dela o que bem entender, pra que você me entenda; façamos! Dane-se o estilo!

Jeitinho brasileiro

Acabo de ler um post sobre hábitos brasileiros que os estrangeiros residentes no Brasil, ou em visita ao país por causa da Copa, avaliaram como positivos e disseram que gostariam de levar apara seus países. Achei interessante este olhar de fora, a partir do estranhamento. Entre os aspectos citados estão nosso costume de abraçar, de dividir o mesmo copo de caipirinha, a mesma cuia de chimarrão, sem frescura, de dar carona, generosamente, até a quem acabamos de conhecer, de tomar banho, vários se possível, ao longo do dia, de almoçarmos como reis, entre outros. Claro que não poderiam esquecer o famoso “jeitinho brasileiro” que eu sempre achei que fosse mais defeito que qualidade. Pois não é que o resultado da tal pesquisa apresentada no texto me fez repensar?! Seguinte: para um entrevistado, o nosso jeitinho de resolver as coisas parte de uma visão otimista, de acharmos que tudo, até a última instância, tem jeito. E não é o que sempre dizemos? Só não se dá jeito pra morte, meu filho, para o resto temos sempre o nosso jeitinho brasileiro.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2010/05/estrangeiros-listam-dez-exemplos-que-o-brasil-poderia-exportar-2898352.html