Sobre a chuva e outros demônios (continuação)

Havia uma garota, um pouco mais velha, de olhos puxados. Os quintais faziam divisa nos fundos, separados por uma velha cerca de madeira que foi se desmantelando sem que consertassem, coberta por um pé de chuchu, formando uma espécie de passagem secreta. Bons vizinhos, diziam. Mas não muito expansivos. A mãe parecia ter feito votos de silêncio; o pai e o avô às vezes conversavam baixo na varanda, quase sem mexer os lábios, como ventríloquos de si mesmos; os filhos, essa menina de uns doze anos e um pirralho mais novo, brincavam quietos no quintal apinhado de plantas e caixotes de madeira, daqueles usados para transportar legumes e frutas, o que parecia ser a ocupação do pai. Nem sequer iam à missa, como todo mundo. Costumes peculiares, um tanto bizarros, comentavam. Restos de legumes eram depositados em um tonel para fermentarem e depois usados como tempero, ou qualquer coisa assim; o banho era tomado em uma espécie de barril, do mais velho ao mais novo, na mesma água. Ela, ouvindo, também torcia o nariz.

Naquela tarde de um provável domingo, brincava distraída perto da cerca, sozinha – já se preparando para a solidão? Arrancava umas gavinhas retorcidas que pendiam do pé de chuchu e dependurava na orelha, como se fossem brincos. O que a fazia parecer um grumete do Capitão Gancho, já que nem de longe lembrava uma menina, com o cabelo muito curto, por causa dos piolhos na escola. Então ela viu a outra, do outro lado, manuseando panelinhas e utensílios de mentirinha em uma casinha de faz de conta, cuidadosamente arquitetada em torno de uma mangueira robusta – ou seria uma amoreira?

A mobília, que se equilibrava ao longo das paredes imaginárias, era composta de caixotes de madeira. Armários, mesa e até uma cama, formada por quatro deles, emborcados aos pares, forrados com um pedaço velho e gasto de lençol estampado de florzinhas cor-de-rosa e raminhos verdes. A outra parte do tecido ela usava enrolada ao corpo, como um quimono. Ajoelhada, ajeitando seus trecos na prateleira, fingia não perceber o enlevo da outra diante da verossimilhança não só da casa, com cada móvel sendo representado por um caixote esmeradamente disposto, mas dos gestos, que lhe davam um ar universal de dona de casa – ou ares de gueixa.

O telejornal vai ficando longínquo como num sonho. Seu nariz oblongo toca a superfície fria do vidro. Através do pequeno círculo de névoa que se forma quando expira o ar quente, parece ver a pequena gueixa em seu quimono, reclinada gentilmente como uma devota, muito séria. Se soubesse, na época, o que era uma gueixa não teria achado graça da indumentária. Pensar que a outra pudesse ter percebido seu riso apalermado, através da cabeleira preta e muito lisa, fez o sangue fluir para seu rosto pálido. Mas ela permaneceu compenetrada e metódica em seu arremedo de prendas domésticas. Ao terminar a tarefa, levantou-se, ajeitou o tapetinho que demarcava a porta sem batentes e saiu por ela, indo em direção à cerca. Aproximou-se sem sorriso e tascou a pergunta corriqueira da diplomacia infantil: Quer brincar? Vou ver se a mãe deixa, engasgou a branquela.

Depois de ouvir severas recomendações sobre como se comportar na casa dos outros e de ter explicado suplicante que só iam brincar no quintal, desbravou a passagem secreta com o coração aos pulos. Sem apresentações, passaram logo a deliberar sobre o papel do novo membro da família. Já havia a “Mamãe”, o que pareceu justo: os pequenos seios despontavam sob o tecido fino do quimono improvisado. O irmão, um garotinho magricela, de olhos ainda mais repuxados, mas não expressivos como os da irmã, e os cabelos escorridos cortados em tigela, era o “Filho”. Ele era muito pequeno para ser o “Papai”. Ficaram quietos por algum tempo. E as duas devem ter entendido tacitamente, depois de uma vexada troca de olhares, que uma menina seria inadequada para o papel – contra o argumento silencioso dos cabelos curtos, o calção de brim azul e a camisa de abotoar, provavelmente herdados de algum primo maior.

Ficou sendo a Filha e, tão docilmente submeteu-se aos cuidados maternais, que passaram a ignorar completamente o garoto inexpressivo. Deitou a cabeça no colo da Mamãe, que fingia catar piolhos – que ela realmente tinha. Até que sentiram uns respingos, como se começasse a chover. Recolhiam tudo, aborrecidas – a piolhenta, desolada por perder o colo mais aconchegante que já havia tido – quando deram pela origem do aguaceiro. O pivete, preterido na brincadeira, mijava de cima de um galho sobre a casinha, com um riso sardônico de aprendiz de demônio. A menina chamou pela mãe. Não havia outra solução senão tomarem banho. Ocorreu-lhe a lenda da tina comunitária e tentou recusar, timidamente, sem muita convicção. Como voltar pra casa molhada de urina? Não houve outro jeito.

Entraram as duas no banheiro grande, cuja porta dava para a varanda dos fundos, não para a área interna da casa antiga. Sombreado pelas árvores, recebia a iluminação precária de uma minúscula janela basculante de vidros sujos. As paredes de madeira enegrecida tinham pontos de apodrecimento, principalmente rente ao chão de cimento desgastado e encardido. “Tudo estava saturado pela umidade opressiva do abandono e pela solidão”, como bem descreveria Márquez – eis as garras cavilosas que, nesta tarde molhada, como num encanto de bruxaria, tragaram-na de volta até aquele cubículo escuro e úmido. Crispou os dedos em torno do livro que pulsava silencioso em seu colo. Por que caminhos a descrição pungente de Márquez a aliciou, numa única frase? Que espectro daquela tarde nublada a oprimiu vida afora?

Sua lividez desmentia os refluxos de sangue que faziam tremer o corpo franzino, prestes a rebentar-lhe o peito infantil. Despidas, as duas silhuetas muito magras e brancas, contra o fundo escuro das paredes, adquiriam certo ar fantasmagórico; esboços em nanquim. A outra mantinha uma das mãos em concha tentando encobrir os primeiros indícios da puberdade, sem se importar em esconder os seios. Dirigiu-se ao lado oposto, onde ficava uma espécie de barril de madeira cheio de uma água aparentemente turva, talvez pela falta de luz. A magricela, que assim, nua, parecia um ser assexuado, com seu semblante parvo e quase angelical, já se preparava mentalmente para o repugnante ofurô.

Ficou esperando, trêmula, na sua nudez apalermada, que a outra fizesse as honras, já que havia uma hierarquia etária para sujar a água e ela era mais velha. Embora achasse que, por ser visita, merecesse alguma deferência. Nem sequer percebeu quando a anfitriã girou uma válvula hidráulica enferrujada e ruidosa, que fez a água esguichar de um velho chuveiro; estendeu seu braço esguio e disse “vem”.

O vento bulindo com as plantas da sacada, os dedos finos da chuva na janela, os transeuntes desvairados, as últimas notícias ordinárias do telejornal, a umidade ameaçando o asseio compulsivo da sala, querendo instalar-se em suas entranhas, García Márquez comprimindo suas coxas; tudo gritou em uníssono: “Vem!” E ela despertou do sono bem em tempo de terminar a leitura, antes que cesse a chuvarada. Há romances que, definitivamente, não combinam com dias de sol. 

Sobre a chuva e outros demônios* (parte I)

Maldito aguaceiro. Chove há dias nessa cidade provinciana, cujo aeroporto, segundo o telejornal, está fechado, como ocorre sempre que o tempo está ruim. E que implicações isto traz pra uma senhora, que nunca voou, nem foi muito além das fronteiras deste estado? Nenhuma. Mas ainda chove e, se ela resolvesse fugir pra algum lugar, teria de ser por terra. Mas, por que diabos fugiria? De quê? De quem? Pra onde? Sua natureza é de ficar. Mesmo a contragosto. E não adianta querer resgatá-la. Não é de se deixar levar, é de se deixar ir ficando. Sem reação. Inerte. Entorpecida. Onde a colocam, fica. Como agora, sentada junto à janela, com um livro aberto sobre as pernas, observando os contratempos do mundo.

Senhoras de meia idade, devem manter-se secas e a salvo. Sem mais decisões importantes a serem tomadas, resta evitar resfriados e arrependimentos inúteis. Há as que se tornam visitas indesejadas como essa chuva incessante, ou moribundas solitárias deslembradas em casas de repouso; peritas em chantagens emocionais e em fazer negociatas escusas com Deus. Não, não, ela não tinha o hábito de se fazer receber a contragosto, nem havia se tornado senil o suficiente para ser encarcerada no esquecimento. Ademais, detestava a ideia do convívio compulsório com outros pobres diabos decrépitos, sem nenhum parentesco entre si, a não ser pelos sintomas da velhice.

Quanto a Deus, foi apresentada muito cedo à sua onisciência e soube logo que Ele conhecia todos os seus pensamentos e abominava a maior parte deles. Assim, pouparam-lhe o trabalho de se esconder em templos. Ele poderia perfeitamente sondá-la ali mesmo, no apartamento minúsculo e compulsivamente asseado em que vivia em aparente estado de clausura. Seu vocabulário empolado e a acidez, mal disfarçada pelos modos de ex-interna de colégio de freiras, funcionavam como um fosso em torno de um castelo medieval.

Deliberadamente só? Não! Foi esposa e mãe. A morte do marido e a felicidade dos filhos arrastaram todos, pra longe. Boa esposa e mãe, aliás; e professora dedicada. Não foi feliz, nem qualquer outra coisa: foi suficiente! Mas em dias insidiosamente úmidos como esse, acabava mergulhada em reminiscências quase sempre obscuras, como os destroços de um naufrágio cobertos pelo limbo do tempo. Ah, se pudessem vir à tona, elucidariam todo o enredo de uma vida. Às vezes, era tão forçoso quanto doentio descer até o fundo, na vaga das impressões tardias. Como as que lhe trouxe a leitura interrompida do romance de Gabriel García Márquez, que pressionava agora contra a pele depauperada das coxas, como se estancasse uma hemorragia.

Tão incômodas e incompreensíveis, que agarrou o controle remoto da tevê como a um frasco de antídoto e mergulhou no noticiário. Um rapaz foi tragado pela água que inundou a avenida. Tinha vinte e poucos anos e fazia faculdade. Tinha sonhos e quiçá um amor no peito. Talvez por isso achasse que poderia transpor com sua moto a água caudalosa da enxurrada. É própria dos jovens e apaixonados a sensação irresponsável de imortalidade. Não tendo encontrado indulgência, abandonou a ambos, telejornal e romance, para olhar lá fora.

A cidade encharcada parecia uma pantomima caótica e mal ensaiada. Maquiagem escorrida, roupas molhadas, ar de desamparo. Personagens esquecidos do roteiro improvisam sob as marquises, esbarrando-se com certa hostilidade ou encolhendo-se como cães abandonados; outros se apressam como fugitivos de algum hospício, resmungando maldições desconexas contra os carros que lançam jatos d’água da enxurrada. Bueiros regurgitam detritos. O céu se contrai numa carranca hedionda. Por que a chuva insistia em continuar desabando onde já se tornara visita enfadonha e inconveniente? Por que não ia atender às rezas lacrimosas e repetitivas das missas da roça pelas plantações em tempo de estio, até a terra ficar intumescida como a vulva de uma fêmea no cio? – Não ousaria pronunciar essa analogia em voz alta – levou a mão aos lábios instintivamente. Maldita educação de colégio interno!

Mas a chuva desaba onde quer. Indiferente a estados de espírito ou circunstâncias. Não zela, nem conforta. Quando muito, testemunha, impassível, o passo apressado de quem corre pra apanhar o ônibus brandindo pateticamente as varetas eriçadas de um velho guarda-chuva como um florete, esgrimindo com os pingos; a consternação embaraçada de quem acompanha o caixão de um ente, equilibrando-se entre os túmulos, resvalando aqui e ali sobre o azulejo escorregadio (a chuva, aliás, parece comprazer-se em dar o tom aos funerais); ou a melancolia de quem espera alguma visita, olhando pela janela, com ares de beatitude e autocomiseração. Precipita-se prepotente, arrastando automóveis, casas, vilas inteiras. A estrela do noticiário escancara nossa ridícula precariedade.

Quando criança, só lhe aborrecia se os mais velhos, em sua ancestral sapiência, advertiam que aquela chuva fria dava resfriado e aí não podia sair pra brincar no quintal. As brincadeiras, quase sempre barulhentas, exigiam espaço. Não se brincava em confinamento, como hoje em dia. Mas em outras ocasiões, glória suprema que só a infância comporta, podia-se tomar banho de chuva. Liberdade insana: correr nas enxurradas, a roupa colada ao corpo, chutando a água que se expandia como um rio. Pra onde foram arrastados aquelas meninas e meninos da sua infância? Pressionou a testa sulcada e árida contra o vidro da janela, como se os procurasse lá fora. Os pingos do beiral da sacada sapateiam repetitivos um cling clang frenético, como numa aliciante dança tribal, que a levou enfim, em transe, a certa tarde de um possível domingo, nublada, talvez, a que García Márquez – com que garras? – a pouco tentou arrastá-la.

(continua)

*Conto premiado na Ciranda de Contos de Londrina.