Aprendizagens

Das coisas que percebi de olhos fechados:

  • o Amor legitima tudo;
  • você é meu espelho;
  • se Deus existe, sua misericórdia é infinita

Das coisas que descobri com os olhos abertos:

  • a força pode subjugar o Amor, por algum tempo;
  • a violência não gera legitimidade;
  • na ira do homem não se mostra a misericórdia divina.
Anúncios

Canais

Ah, estas ferramentas dando a falsa sensação de distâncias mitigadas… nossa sanidade por um fio… nunca pensei, eu, que sempre amei as palavras, que elas seriam elos, os únicos, com pessoas que só em sonhos eu conheceria…  Estas novas tecnologias pariram uma série de aberrações que ainda estão sendo investigadas e que me assombram diariamente. Entre elas, a amizade virtual, o abraço e o beijo virtuais, este último geralmente abreviado, o sexo virtual. O orgasmo em Caps Lock, assim como a raiva, a grosseria. Mas também a doçura derramada pra além mar. Doces ilusões… No mais, aqui, até o que era pra ser secreto, íntimo, se torna público, compartilhado – é o caso destes meus solilóquios. Nossa curiosidade espreita da janela, como sempre fizemos, ao longo dos séculos; só que, agora, de modo amplificado: nossa maledicência, nossas paixões, nossa solidão, nossas buscas tresloucadas… Aliás, o que você veio buscar aqui, caro(a) leitor(a) desavisado(a)?

Fio da meada

Enfileirados pra votar, como bandeirolas recortadas de revistas coloridas atravessando o pátio da escola: cada um com sua cor, seu conteúdo, unidos pelo mesmo fio invisível. Era quase hora do almoço quando saí da minha casa, de mãos dadas com a esperança, essa bobagem que só os humanos acalentam, essa tolice que inventamos e sem qual a vida é impossível. Em fila indiana, libertários, reacionários, machistas, progressistas, debochados, céticos, crédulos, indefinidos, caminhamos, traídos pelas mesmas ciladas. Miramos no que vemos e acertamos no que não vemos, armadilhas do nosso moderníssimo sistema eleitoral: eleição proporcional, direito compulsório ao voto, coligações inexplicáveis. A biometria dando pau em sua estreia, as filas serpenteando em direção à porta de uma sala de aula; pintura do teto descascando, as janelas sem cortinas, alguns vidros quebrados, infiltração, descuido. Não é aqui que tudo começa, onde nos falaram sobre os três poderes, democracia representativa, sufrágio? Olha esta escola! Eu observava o desalento estrutural de longa data, quando chegou minha vez: entrego meu título de eleitor e meu documento de identificação, a mesária confere o nome na lista, assino, deposito meu polegar sobre o leitor e sou reconhecida, de pronto (alguns tiveram de tentar os outros dedos)… confirmo meu protesto, meu grito mudo. Saio, resvalo a fileira de gente, em sentido contrário. Um a um, a democracia vai desfiando o seu rosário; cada um de nós, uma conta, um elo no fio da trama. Esperamos a apuração – a mais rápida do planeta – e ficamos com uma dúvida: o fio que nos prende anda esgarçado, ou somos todos uns pândegos? Mais de um milhão de votos pra um palhaço! E nem é este o problema; poderia até ser emblemático, se não fosse pelo “quociente eleitoral”. Alguém precisa pacientemente nos explicar que é assim: você vota na Chapeuzinho Vermelho e acaba elegendo o Lobo Mal. Pra onde correr? Por enquanto, para casa, conferir o estrago. A vantagem é que é rápido, quase indolor. Antes do que pensamos, voltamos à normalidade das nossas vidas. Afinal, o que é a política, na ordem do dia?

Ausência

después de todo / pese a todo

hay una alegría extraña / desbloqueada

en saber que aún podemos estar tristes

(Mário Benedetti)

Ainda não aprendi a sangrar de verdade. Não pra fora: minha dor, a dor que acalento, escorre pra dentro. Não torça o nariz, não me venha com esse arzinho blasé. Não posso afirmar, sem aquela arrogância que toda certeza carrega, mas penso que todos temos uma dor, geralmente inconfessa, que não é uma dor qualquer, mas aquela que nos define. Pra entendê-la, criamos a linguagem; pra nos escondermos dela, inventamos o cotidiano. Acho que quanto mais atarefados, compenetrados e ciosos dos nossos afazeres e obrigações, mais acovardados estamos diante deste assombro. Não é possível que você pense mesmo que a saga da sua vida se restringe a manter tudo nos seus devidos lugares, a produzir e comprar objetos, para então organizá-los junto aos demais, livres da poeira; valendo, tanto quanto possível, para as pessoas ao seu redor, o mesmo senso de manutenção. Isto não é felicidade, nem realização, são pequenas alegrias. Eu aprecio. Você me acha melancólica, mas eu poderia desfiar um imenso rol das pequenas coisas que me alegram. E, ainda assim, há aquela que me angustia e que, talvez, guarde em seu avesso a felicidade. E quanto a você? Pode até parecer bem resolvido demais para alimentar melancolias, pragmático ou superficial demais para estas tolices, estes melindres; mas, entre a lista de afazeres para o dia seguinte e o instante que precede o sono, se não conseguir mergulhar desesperado no mar de trivialidades que arrastaram o dia, sua garganta se estreita e uma frase, que sua alma simplória e acomodada é incapaz de formular, fica estrangulada. Essa é, precisamente, a frase que eu procuro.

Suporte (à noite é quando tudo se junta dentro de nós)

Eu queria cantar para alguém dormir,

junto a alguém me sentar e quieto estar.

Queria embalar você e murmurar uma canção,

estar com você nas fronteiras do sono.

Ser o único acordado na casa

e saber que a noite está fria.”

– Rainer Maria Rilke

Passou a vida produzindo tragédias de diversas proporções. Das mínimas, quase imperceptíveis, às catastróficas, difíceis de ignorar; das passageiras às perenes; das involuntárias às premeditadas. Mas ninguém suspeitava. Ela mesma tinha apenas uma vaga impressão de ter interferido aqui e ali de forma desastrada (como quando foi abrir o saquinho de leite na primeira manhã que passaria com a mãe, o padrasto e os irmãos, tão empolgada e perplexa por ser uma menina que aos nove anos nunca havia tomado café da manhã com mamãe-papai-e-irmãozinhos, que acordou muito cedo apesar da viagem cansativa; segurou o saquinho plástico pela ponta e cortou, logo abaixo dos dedos, a brancura explodindo no chão vermelho-encerado, a menina inadequada no meio da cozinha, as primeiras perspectivas se espatifando aos seus pés); de ter agido com imprudência (como quando engravidou… mas, aí… não sei não, o destino trata de fazer bom uso do descuido alheio: como pode uma vida inteira, uma pessoa, um universo, surgir da imprudência? Uma folha não cai de uma árvore sem que…); de ter sido movida pela premeditação (escolheu permanecer, escolheu a segurança, envolveu mais gente no seu plano enlatado de felicidade do que poderia se desvencilhar). Não adianta pensar nisso agora, dizem os olhos no espelho; mas é que à noite, como disse alguém, é o momento perfeito para sentir o soco no estômago. O dia cuida de si mesmo e te arrasta, como numa plataforma lotada em que você é conduzido meio sem querer para dentro do vagão… agora, você pode decidir não embarcar… ok, mas é inútil fazer beicinho, espernear e dizer que cansou de tudo; como as cicatrizes nos seus pulsos que pra uns você diz que foi uma tentativa desastrada de se escafeder e pra outros você diz que cortou no vidro da porta. Tudo isso é pirraça! Mas, se quer mesmo empirraçar, aguente firme pra ver onde vai dar essa m* toda. Aliás, já que gosta destas metaforazinhas adocicadas que parecem solucionar seus problemas todos de uma vez, lá vai: a vida é como um bilhete de passagem gratuito para um destino desconhecido; você pode usufruir até o fim ou rasgá-lo e desistir no meio da viagem; se seguir adiante, pode dar com os burros n’água, mas também pode desfrutar paisagens incríveis; é cansativo, não há garantias, nem é muito seguro, mas é de graça, minha filha, e, de graça, até injeção na testa! Suporte as últimas horas do dia, o toque de recolher, as sombras do passado nem tão longínquo. Na sala, ela ajeita um bibelô na estante, olha ao redor, contabiliza: a casa ressona em segurança e você, você, de quem não esperavam nada, não desertou, essa é que é a verdade. Espere… Tudo é uma questão de suportar uma noite após a outra… óbvio: a noite tem de dar a volta ao globo pra ir desabando aos poucos sobre todos os viventes, nunca todos de uma só vez… o sol vai entrar pela janela, fazendo brilhar as vasilhas, antes que você acorde…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes,Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman

Bom dia, flor do dia! (ou de como, numa manhã qualquer, conheci uma suicida)

Seis e quinze da manhã, passei pela roleta do ônibus e, sabe-se lá por que cargas d’água, fui me sentar ao lado dela. A aleatoriedade travestida de arbítrio, porejando teleologia, talvez seja o truque mais sutil  e mais besta que a vida traz na manga. Era enfermeira no hospital onde eu trabalhava na lavanderia. Eu fazia faculdade à noite e não queria conversa àquela hora; ela era de poucos amigos, vai ver foi isto. Nesta época, eu não passava de uma passageira desavisada; você escolhe o assento ou esbarra em alguém e todas as cores do seu dia, que ainda eram expectativa, podem se derramar no seu colo e virar uma mancha indefinida. Resolvi emoldurar e colocar na parede, assim mesmo, junto aos demais borrões. Se há alguma epifania, ou chame do que quiser, nascida deste encontro fortuito, já adianto aqui, pra não ficar brincando de enigma com você: é questão de sanidade evitar certos pensamentos, tanto quanto possível (caso contrário, periga a gente sair à rua pelado com o dedo no cu cantando o Hino Nacional ou, pior, suicidar-se ou tentar ser escritor, o que dá no mesmo). Tais pensamentos são: a morte e seus meandros; a noite e seus mistérios; a miríade de micro-organismos à nossa volta; o modo como alguns alimentos são produzidos (acrescentei por conta) e os detalhes sórdidos da intimidade alheia. Começou assim: pra mal dos meus pecados, eu tinha retirado bruscamente uma das mãos da barra de apoio do banco da frente e levei ao rosto pra conter um espirro e tive de ouvir da moça uma preleção sobre a quantidade imensurável de bactérias que proliferavam ali, onde todos põem as mãos, sem falar nas maçanetas e etecétera. Um quadro horrendo da conspiração invisível da natureza pra nos esculhambar e fragilizar. Passamos para a mudança inesperada da temperatura e, não sei bem como, chegamos às baratas; ah, sim, tinha esfriado à noite e ela mencionou que, mesmo assim, dormia com o ventilador direcionado para seu rosto por causa das cascudas: estes insetos asquerosos têm o hábito de introduzir suas anteninhas tremelicantes nos orifícios dos nossos narizes enquanto dormimos, você sabia? Admiti, rindo, que não sabia. Descemos do ônibus e seguimos para o vestiário, ela dizendo, surpreendentemente confidente, que tinha uma filha, mas não tinha marido ou namorado: mulher é latrina, o homem faz lá suas necessidades e pronto. Vestiu o uniforme branco (era bonita! será que ela dava seu jeito?) e me deixou, perigosamente sozinha, sem um “até logo” e nunca mais nos vimos. Uma quase estranha a lançar seus gris e toda a escatologia sobre minha existência já meio confusa! Que confluência estranha foi aquela? Segui com urgência pelo corredor mal iluminado, ainda amarrando o avental ao passar em frente ao necrotério, quase correndo. Precisava do burburinho da lavanderia e sua lógica: da área suja para a área limpa, desinfecção, calor, claridade. Na amanhã seguinte, atravessei a roleta pronta a forçar o movimento contrário e esparramar meu otimismo bobo ao longo do trajeto. Ia espetá-la, direto e reto, com meu melhor “bom dia”. Mas ela devia estar de folga ou de licença. Dias depois, encontrei os funcionários da lavanderia estarrecidos, a calandra parada, os lençóis amontoados, à espera. A enfermeira, aquela mesma, tinha se enforcado com um cinto em um hotel de beira de estrada; a filha, ao lado do corpo da mãe, escapou por pouco; ao que parece, ao retirar o artefato do pescoço da criança, que julgava morta, para usar em si mesma, a moça acabou por salvar inadvertidamente uma vida. Um raiozinho de luz sobre seu último aceno, um subterfúgio? Eis aí. Espero não ter manchado sua manhã, já que sou quase uma estranha. Bom dia!

Você me chamou de quê?

Todo nosso esforço de vida se resume ao nosso temor e subserviência ante às nomenclaturas, à velha tia Norma e suas terminologias. Seremos alcunhados, ao longo da vida em diversos níveis e, tão logo nos damos conta disto (o que, para alguns, pode ser bem cedo), passamos a viver em função deste pesadelo que é tentar controlar o que dirão de nós. E não há nada que irrite mais a audiência do que não saber onde nos enquadrar; aí fazem da língua e da ironia o açoite e o sal com que tentam nos colocar sob sua grotesca baliza. É incrível, mas nossa existência não é marcada por acontecimentos relevantes ou não, memoráveis ou não, mas por tentativas desesperadas em atender (ou refutar) expectativas. A moral, a moda, a medicina e toda esta parafernália que é para o nosso bem e nosso mal e que, por isso, avalizamos e nos impomos mutuamente, nos mantêm na linha. Depois vem o cinema, o poema, o diabo nos desafiar, eis o truque: viver, mesmo, é quebrar a escrita, é subverter. É tomar banho de chapéu, como diria o Raul. O pior lugar pra se descobrir isto é na UTI, ou de dentro do caixão. Por outro lado, o mais simplório dos seres será, com certeza, o morto de semblante mais tranquilo. E os presentes dirão “morreu em paz” (embora talvez seja lançado às trevas exteriores por ter enterrado seus parcos talentos). Mas aquele que se debate e com dificuldade se deixa guiar terá, no último ato, o pior tipo de comiseração: a que vem de quem nunca foi capaz de compreender sua ideia de felicidade e dever, dos que se unem sob a mesma doutrina, o senso comum. Aliás, como citou Cocteau, “nunca se é compreendido, é-se admitido”.