Suporte (à noite é quando tudo se junta dentro de nós)

Eu queria cantar para alguém dormir,

junto a alguém me sentar e quieto estar.

Queria embalar você e murmurar uma canção,

estar com você nas fronteiras do sono.

Ser o único acordado na casa

e saber que a noite está fria.”

– Rainer Maria Rilke

Passou a vida produzindo tragédias de diversas proporções. Das mínimas, quase imperceptíveis, às catastróficas, difíceis de ignorar; das passageiras às perenes; das involuntárias às premeditadas. Mas ninguém suspeitava. Ela mesma tinha apenas uma vaga impressão de ter interferido aqui e ali de forma desastrada (como quando foi abrir o saquinho de leite na primeira manhã que passaria com a mãe, o padrasto e os irmãos, tão empolgada e perplexa por ser uma menina que aos nove anos nunca havia tomado café da manhã com mamãe-papai-e-irmãozinhos, que acordou muito cedo apesar da viagem cansativa; segurou o saquinho plástico pela ponta e cortou, logo abaixo dos dedos, a brancura explodindo no chão vermelho-encerado, a menina inadequada no meio da cozinha, as primeiras perspectivas se espatifando aos seus pés); de ter agido com imprudência (como quando engravidou… mas, aí… não sei não, o destino trata de fazer bom uso do descuido alheio: como pode uma vida inteira, uma pessoa, um universo, surgir da imprudência? Uma folha não cai de uma árvore sem que…); de ter sido movida pela premeditação (escolheu permanecer, escolheu a segurança, envolveu mais gente no seu plano enlatado de felicidade do que poderia se desvencilhar). Não adianta pensar nisso agora, dizem os olhos no espelho; mas é que à noite, como disse alguém, é o momento perfeito para sentir o soco no estômago. O dia cuida de si mesmo e te arrasta, como numa plataforma lotada em que você é conduzido meio sem querer para dentro do vagão… agora, você pode decidir não embarcar… ok, mas é inútil fazer beicinho, espernear e dizer que cansou de tudo; como as cicatrizes nos seus pulsos que pra uns você diz que foi uma tentativa desastrada de se escafeder e pra outros você diz que cortou no vidro da porta. Tudo isso é pirraça! Mas, se quer mesmo empirraçar, aguente firme pra ver onde vai dar essa m* toda. Aliás, já que gosta destas metaforazinhas adocicadas que parecem solucionar seus problemas todos de uma vez, lá vai: a vida é como um bilhete de passagem gratuito para um destino desconhecido; você pode usufruir até o fim ou rasgá-lo e desistir no meio da viagem; se seguir adiante, pode dar com os burros n’água, mas também pode desfrutar paisagens incríveis; é cansativo, não há garantias, nem é muito seguro, mas é de graça, minha filha, e, de graça, até injeção na testa! Suporte as últimas horas do dia, o toque de recolher, as sombras do passado nem tão longínquo. Na sala, ela ajeita um bibelô na estante, olha ao redor, contabiliza: a casa ressona em segurança e você, você, de quem não esperavam nada, não desertou, essa é que é a verdade. Espere… Tudo é uma questão de suportar uma noite após a outra… óbvio: a noite tem de dar a volta ao globo pra ir desabando aos poucos sobre todos os viventes, nunca todos de uma só vez… o sol vai entrar pela janela, fazendo brilhar as vasilhas, antes que você acorde…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras: Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes,Maria Cininha, Mariana Gouveia e Tatiana Kielberman

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