Amor e cheiro

Estou saboreando (veja que não disse ‘devorando’) o suculento “Ishq e Mushq: Amor e Cheiro”, de Prya Basil. É possível que eu não termine a leitura, indisciplinada e inconstante que sou… Adoro protelar os desfechos, não por que os anseie: odeio desfechos! Em verdade, vos digo: nenhuma estória realmente termina. Por isso gosto de contos em geral e de romances contemporâneos: ambos, feito donzelas sapecas e astutas, te deixam na mão, com aquela cara de “e aí? o que vem depois?” Prefiro mil vezes, super prefiro esta sensação àquela outra dos finais felizes (ou nem tanto… dramáticos, de qualquer modo…); e, de mais a mais, um naco maior pode provocar um engasgo fatal e pimba, lá se vão as perspectivas.

Pois bem, o romance se inicia com as palavras da mãe de Sarna, a protagonista, que por si só, dão muito o que pensar: “Lembre-se, existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e Mushq. Amor e cheiro.”

E Sarna parece ter muito a esconder. Madame Bovary já há muito tempo libertou as protagonistas  da abjeta obrigação de serem virtuosas. Mas não das suas lutas interiores (também nossas); nem das aparências (idem, amém nós todos), meu pai do céu! Assim, a jovem indiana tenta impregnar seus dias com o cheiro da comida que prepara, a fim de amenizar as dissidências da alma:

Enquanto criava essas variações caleidoscópicas, a ideia de que talvez fosse possível alterar as lembranças lhe ocorria com frequência. Por meio de sua culinária, descobria que cada ingrediente pode ser transformado e que quase todo sabor pode ser mascarado. A princípio lentamente – e aos trancos -, ela começou a desconstruir as lembranças enquanto construía as receitas. Sarna então maquinava novos sabores e histórias. (…) Sob densos véus de aroma de tempero, enganava suas saudades da Índia. “Existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e Mushq: Amor e Cheiro”. As palavras de Bibiji lhe vieram e ela sorriu. Sentindo-se já mais inteligente do que sua velha mãe, pensou que, na verdade, talvez fosse possível esconder Ishq no Mushq, pois Mushq pode ocultar muitas coisas.

(Basil, Prya. Ishq e Mushq: Amor e Cheiro. São Paulo: Lis gráfica e editora, 2008. P. 39)

Se tiver oportunidade, delicie-se…

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Prefácio

Este blog deveria se chamar “Meio livro me basta”. Inicio diversas travessias, sem concluir nenhuma delas. Pode chamar de indisciplina, preguiça, ou, indo mais fundo, de medo incontrolável de desfechos. Minha mãe ralhava comigo em terceira pessoa: “ela deixa tudo pela metade!”, como se lamentasse, pra si mesma, uma maldição. E assim tem sido. Caiu-me nas mãos, recentemente, o Rubem Alves, “Variações sobre o prazer…”; lancei-me sobre ele com a mesma voracidade com que me atiro a toda promessa de boa leitura que provavelmente não levarei a termo. Não vou terminar, eu sei; não sou boa em términos… deixei a porta entreaberta, mas, antes, suguei das primeiras páginas algo pra mim… era ainda o prefácio (crê nisto?):

Senti, então, que não gostaria que aquilo que eu havia escrito ficasse enterrado. Afinal de contas, o que eu escrevo é parte de mim mesmo. Mas sabia, ao mesmo tempo, que meus esforços para terminar o livro seriam inúteis. Brinquei, então, com a ideia de publicar o livro do jeito que estava, não terminado. Nisso ele se pareceria com a vida. A vida nunca é terminada. Ela termina sempre sem que tenhamos escrito o último capítulo.

(Rubem Alves, Variações sobre o prazer…)

Vida-prefácio: os capítulos derradeiros são sempre post mortem. Compostos à revelia do personagem: você não é Brás Cubas, querida; e mesmo Brás Cubas, coitado, era só uma incursão realista do casmurro Machado. Mas a vida não é romance… O que dirão de você, o que ficará posto a seu respeito, alma minha, já não lhe pertence mais… tão boazinha, coitada, trabalhadeira, amorosinha, risonha, meio inconveniente, meio explosiva, tadinha… meio? oh, tenham dó! eu fui… ou pelo menos tentei ser inteira… obus de morteiro, incandescente, iridescente… agora, olha só pra mim… uma menina inacabada! “não dá pra ter tudo”… vai ser gauche no inferno, vai ser transcendente, vai ser respeitável, enfim… o que era pra ter sido. Sobretudo, sem nenhum arrependimento. Seria inútil: seja prática, uma vez na vida! Merda!

A estrada morta

Dos livros que estou a meio do caminho, em intermitente estado de leitura, tem “Terra Sonâmbula”, do Mia Couto. É que alguns livros são assim: você vai entrando, entrando, como quem decide atravessar um rio. Você sente a corredeira roçar seu tornozelo e tenta se familiarizar com o lodo no fundo, a temperatura da água e a força com ela tenta te arrastar. Depois a torrente caudalosa lambe suas pernas como milhares de serpentes. Pode ser que, lá pelas tantas, o temor te domine e você ache que não dá pé; ou já seja quase hora do almoço e a aventura não se justifique naquele momento – melhor voltar para a margem inicial e recomeçar outro dia. Afinal, o rio sempre estará lá. De modo que a “Terra Sonâmbula” se tornou pra mim uma perene promessa adiada de travessia; que começa assim:

Primeiro capítulo

A ESTRADA MORTA

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. (…)

Por falar em olhos faiscantes

Era uma aula de Literatura Portuguesa na faculdade de Letras e eu, no meu invariável atraso, tentei me ajeitar sem alarde. Deixei a bolsa escorregar do meu ombro para o chão; depositei o caderno e as folhas com as cópias dos textos sobre a minúscula mesa, enquanto me encaixava na cadeira fixa a ela. O Professor Henrique Ávila levantou os olhos rapidamente e retomou a leitura dos poemas, com seu sotaque de outro país de Língua Portuguesa. Acho que, felizmente, minha interrupção não foi tão brusca a ponto de trazê-lo à tona: encontrava-se naquele estado que Affonso Romano de Sant’anna chamou de “o incêndio de cada um”. Apenas seu olhar parecia ainda a custo manter algum contato com aquela sala de aula. E que contato fulgurante! Seus olhos miúdos espargiam fagulhas a cada pequena pausa. Uma delas veio dependurar-se em mim, a certa altura, no momento mesmo em que ele parou, no primeiro verso da segunda estrofe. Nem de longe o ponto ideal para uma pausa mais demorada como aquela.

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, e caravela, e dor!

Fui tudo que no mundo há de maior,

Meu estranho mal… renda… cipreste… caravela… dor… e, por fim, as palavras ‘tudo’ e ‘maior’ me atingiram em cheio. E não pude mais atinar para o desfecho do poema – passei a recitá-lo mentalmente assim mesmo, com um verso capenga a encerrar a estrofe à qual nem sequer pertencia – apenas o nome da autora, pronunciado com reverência devota, ao final: Florbela Espanca. E os olhos faiscantes do professor Henrique. Não me julgue. Fui pega distraída; estava suscetível.

Comigo me desavim

Por falar em desperdício, sei de cor alguns poemas (do Pessoa, do Vinícius, do Bilac, da Florbela…); coisa inútil, absolutamente inútil, já que a maioria das pessoas do meu convívio acham esquisito alguém propor: posso recitar um poema? E, se insisto, ficam me olhando com a benevolência que se dispensa a um pobre louco,  constrangidas com o brilho profano dos meus olhos enquanto derramo cada verso como se fosse meu. Constrangidas, porque a poesia não é nada pragmática e exige aquele ar de circunspecção e enlevo, que na maioria das pessoas é superficial. Faz com que se sintam um pouco tolas e deslocadas, o que não é bom! E eu nunca quis constranger ninguém. Acredite, passei minha vida tentando evitar isto (inutilmente)! Então dei pra declamar poemas mentalmente, pra mim mesma, ou sussurrá-los como mantras. Acho que o primeiro deles foi uma canção de Sá de Miranda, que eu murmuro desde a adolescência. Encontrei no livro didático, em plena aula de língua materna, devidamente ‘traduzido’ do Português d’além mar e tempos-idos para o nosso. Era o “Comigo me desavim”, que passou a dar conta do meu constante estado de estranheza co-existencial…

Comigo me desavim,
vejo-me em grande perigo,
não posso viver comigo,
nem posso fugir de mim.

Antes que este mal tivesse,
de outra gente fugia;
agora, já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

Que cabo espero, ou que fim
deste cuidado que sigo,
pois trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Então, que seja…

“Então, que seja enquanto tiver que ser. Nem mais, nem menos. Apenas o suficiente e que saibamos aproveitar ao máximo para não dizer depois: não fiz isso ou aquilo”, você disse, do fundo da distância que nos divide e protege (embora eu possivelmente te arranhe, como você a mim, mesmo à distância). “Mas a gente, no fim, sempre quer mais. Não é mesmo?”

Eu saí pela tangente: “Você se lembra de quando a gente era criança e a mãe chamava pra jantar? de como parecia ser sempre no melhor da brincadeira? Não importava a quanto tempo estávamos brincando”… E era exatamente nisto que eu estive pensando… você sempre me remete a coisas em que eu estive pensando…

“Somos humanos, minha cara, sempre queremos mais e mais… faz parte do que somos! No meu caso, era quando estava com os livros, no quarto… sempre me chamavam a compor a mesa e eu dizia “mas e se acontecer algo a mim e não souber o final do livro? Preciso terminar aqui” e ela sempre me dizia “o que poderia acontecer a você durante o jantar?”… Engasgar, comer demais e ter uma indigestão…”

Acertou em cheio, de novo: andei espantada com a quantidade de livros cuja leitura eu deixaria se morresse de engasgo agora. Como eu lhe disse, “são muitos, porque começo vários ao mesmo tempo… agora mesmo estou às voltas com Ishq e Mushq, da Priya Basil; um do Rubem Alves; Inés da Minha Alma, da Isabel Allende; Nada além de todos os dias, da Lara Galvão; um outro sobre Ética, uns contos… que desperdício!” Enviei a mensagem e fiquei resmungando: que desperdício! “é tanta vida… podemos todos engasgar, minha cara, a qualquer momento”…

Desperdício

“Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo.” (Lorca)

A morte é uma desgraçada de uma puta pobre: leva qualquer um, sem qualquer critério. Eu era menina quando li, sob um poeminha do Casimiro de Abreu, que ele tinha morrido aos vinte e um anos. Pensei: pô, que desperdício! E fiz um desajeitado cálculo de quantos poemas ele poderia ter escrito se vivesse, sei lá, até os cinquenta… um cálculo simplório, eu sei, que só via o tempo!, que não considerava outras variáveis: o Casimiro podia bem se apaixonar e ser correspondido, casar, ter filhos e se achar de alguma forma feliz, o que comprometeria sua produtividade. Mas isto não vem ao caso. Quando a gente joga cartas, tem de descartar as que não servem. A filha-da-puta da morte não! Não tem o menor critério! É mais democrática que o sol (que, em tese, nasce pra todos). Até hoje não consigo evitar este pensamento: tanta gente fazendo peso (e caca) sobre o planeta… e agora a cretina vem se engraçar comigo (que ainda nem resolvi meu caso complicado com a  vida)!!! Pô!!!

(e ainda nem escrevi um livro… merda!)