Eu, pessoa…

Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro
indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha
história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas
nada digo, é que nada tenho que dizer.
Que há (de alguém) confessar que valha ou que sirva?
O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós;
num caso não é novidade, e no outro não é de compreender.
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de
sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem
importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das
sensações. (…) Estas confissões de sentir
são paciências minhas. Não as interpreto, como quem
usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque
nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-
me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras
de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se
passam de umas crianças para as outras. (…)
De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade
horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar
sentindo… Uma inteligência aguda para me destruir, e um
poder de sonho sôfrego de me entreter… Uma vontade morta
e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo…
(Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego)

2 comentários sobre “Eu, pessoa…

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