Se nada der certo…

Tenho notado, em minhas aulas, que a ideia do que é ser “bem sucedido”, entre adolescentes das escolas públicas em que leciono, se distancia das profissões geralmente exercidas por seus pais. Ser cozinheira, zelador, porteiro, motorista de ônibus, etc, são exemplos de atividades que, ao ser sugeridas, são acompanhadas de risinhos constrangidos. Infelizmente, essa visão é reforçada por alguns professores. É preciso se formar, ter diploma, ter uma boa profissão. E uma boa profissão, nesse caso, implica pouco suor, nenhum calo nas mãos e algum status social. Ah, sim, boa remuneração e oportunidade de “crescer”. Aliás, não por acaso, nossos estudantes têm relegado a docência ao rol de profissões indesejáveis. Nós levamos trabalho pra casa, não temos a menor chance de enriquecer e há muito tempo deixamos de ser uma classe profissional valorizada. Mas, afinal, o que significa ser bem sucedido, dar certo? É chover no molhado dizer que vivemos em uma sociedade em que se valoriza mais o ter do que o ser! Há quem diga não aguentar mais falar de luta de classes. Mas o tema ainda gera questionamentos interessantes. É o que mostra a repercussão, nas redes sociais, da carta do filho de um porteiro em resposta a estudantes de um colégio particular que promoveram uma festa com o tema “Se nada der certo”. O ideia era de que os estudantes do terceiro ano do ensino médio comparecessem fantasiados de faxineiros, porteiros e demais profissões consideradas “indesejadas”.

Pode-se levar em conta o senso de humor, mas não se pode esquecer que nossas piadas costumam revelar muito da nossa visão de mundo.

Segue a carta, para sua apreciação:

Meu pai aposentou-se como porteiro. O mesmo que vocês têm aí na entrada do Colégio, que os pais “que deram certo” passam e nem cumprimentam.
Então, falando do meu pai, ele trabalhava feito um condenado (aliás, mesmo depois que se aposentou teve que voltar à portaria pra completar a renda). O que meu pai recebia de salário era uma mensalidade que as famílias “que deram certo” pagam pra vocês ensinarem essa ética (ou falta dela) aos estudantes.
Ele tinha uma Barra forte preta e com ela ia de sol a sol, chuva a chuva, noite a noite, cuidar de fábricas ou de condomínios ao estilo que os alunos moram ou que os pais “que deram certo” trabalham como Diretores, Gerentes.
Aprendi a profissão com meu pai. Fui porteiro por anos. Vi o que é você comer em pé ou no banheiro porque não tem ninguém pra substituí-lo nos intervalos. Cansei de atender pessoas na guarita enquanto mastigava um ovo frio.
Já usei papelão como mesa em cima da privada para almoçar.
Colégio Marista, meu pai não deu certo. Criou três filhos junto com a minha mãe que ficava apreensiva em casa: -” Será que ele volta?” Porque meu pai pegava estradas perigosas de madrugada, aliando-se ao fato de muitas vezes cuidar de galpões abandonados,que era alvo de bandidos.
Mas ele não deu certo.
Conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo.
Meu pai não é desses pais bacanas que param aí na frente do Colégio, com Cherokees, Tucson, sorrindo pra quem convém e pisando nos descartáveis.
Meu pai tem um Palio que vive quebrando, e mesmo debilitado pela idade, levava todos os netos às escolas públicas. Levava e buscava.
Mas, que pena! Meu pai não deu certo.
Quem deram certo foram essas famílias que dependem da faxineira, do porteiro, do zelador, da cantineira, do gari, da empregada doméstica. Eles deram certo!
Ainda bem que muita gente “dá errado” na vida, senão quem iria preparar o lanche dos filhos que vão para o Colégio Marista? O pai? A mãe? Não sabem nem como ligar um fogão! Mas deram certo, não é?
Fique um dia sem um gari na sua rua e no dia seguinte você já está ligando na prefeitura fazendo birra! Ué? Pega uma vassoura e varre! Você não “deu certo”?
Fique sem porteiro no condomínio e mundo para. Não sabem descer pra atender o motoboy? Tem medo de quem seja? Pode ser um ladrão, não é? Deixa que o porteiro arrisca (sem seguro de vida) a vida por você (com seguro de vida).
Gente que não deu certo existe pra isso: mimar os que deram certo.
Tenho orgulho de ter um pai que não deu certo, Colégio Marista. E eu tenho orgulho de não ter dado certo também. Já pensou, criar minha filha num ambiente que debocha de profissões, que em vez de promover a isonomia e empatia, fomenta a segregação e a eugenia?
Deus me livre!
Aliás, por falar em deus, vocês são de formação católica certo?
Se nada der certo, vocês vão virar carpinteiro também? Embora eu sendo agnóstico, respeito muito um carpinteiro que “não deu certo” e que vocês finjem amar. Que feio, Colégio! Ensinando crianças a desprezarem seu Mestre?
Enfim, falei demais. Obrigado pela lição de hoje. Talvez tenha sido o único ensinamento que vocês deixaram:
Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros. Viu, a lição de vocês acabou “dando certo”!

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5 comentários sobre “Se nada der certo…

  1. Bom demais ver você de volta comadre! Triste porém, é essa realidade com valores tão distorcidos passados aos nossos jovens, futuros dessa nação. Fico imensamente aliviada em saber que meus pais não deram certo e mesmo assim, souberam criar os filhos e fazer deles, cidadãos fortes, conscientes e batalhadores. Beijo!

  2. ritmoyletras disse:

    A pergunta é: o que valoriza o ser humano? O nosso valor é medido pelo dinheiro? Ou pelos contatos ‘influentes’? Infelizmente essa nao é uma circunstância brasileira, é ocidental. Deixamos de pensar para consumir.
    Compartilho poesia latina, traduzida ao português grátis. Visite meu blog. Espero que os alunos brasileiros tenham acesso a cultura em geral! 🙂

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