Je suis Charlie; Madame Bovary c’est moi; eu sou você…

Uma frase repetida à exaustão está sujeita a se esvaziar, a ir se esgarçando feito o tecido de uma bandeira esbatida. Assim, entre o noticiário e a refeição, você já está anestesiado para o apelo gasto e repetitivo e já se comove mais com o que falta em sua lista de compras.  Filtro de café, pelo-amor-de-deus!, e papel higiênico, como pode? Um não substitui o outro! Suas micro-tragédias parecem mais relevantes, a esta altura. E, depois da comoção inicial, você começa a aceder aos arautos da sabedoria: ora, liberdade de expressão não justifica a intolerância religiosa.

Eu, cá com meus botões, enquanto corto cebola usando técnicas avançadas anti-lacrimejamento, respiro fundo e resisto: não, a violência não produz legitimidade! Então, quem sou eu? De que lado eu estou? Não sei não, desconfio de que a medida da minha humanidade esteja na minha capacidade de ser o outro. Não um só, um único lado, mas o diverso. E não acabo de inaugurar ideia alguma. Jesus Cristo já havia apelado para a empatia: “quem dentre vós não tiver pecado algum”…

Gustave Flaubert, ao ser questionado sobre o escândalo provocado por sua personagem, que expunha a hipocrisia reinante na sociedade da época (da época???), disse, astutamente, ao tribunal: “Madame Bovary c’est moi” (Madame Bovary sou eu.) Convenceu o tribunal, mas não a sociedade, que não queria se ver no retrato cinza.

O que a personagem que deu início ao romance realista tem a ver com os atentados ao jornal francês, comigo e com você? É que eu sou Charlie, mas também sou o imigrante muçulmano, a minoria (religiosa, racial, sexual e o escambau!). Eu sou você. E, se você aceitar minha lógica, você sou eu. E nós somos Madame Bovary, personagens controversos, nem bons nem maus, apenas humanos e sujeitos a erros. Não iguais. Nunca. Deus me livre e guarde da chatice de um mundo homogeneizado! Mas, sei lá, capazes de andar do mesmo lado da rua sem supostas superioridades, sem agressão. Pode ser?

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11 comentários sobre “Je suis Charlie; Madame Bovary c’est moi; eu sou você…

  1. O ser humano me incomoda… com suas guerras pessoais e conjuntas. Suas guerras sem objetivo algum. Guerras sao guerras… e nos saboreamos esse horror como se fosse um prato bem feito com ingredientes cuidadosamente escolhidos. E no dia seguinte, queremos mais, algo novo que incomode e nos deixe desalojados. Depois nos acostumamos de novo e ja nao somos mais capazes do choque. Por isso nao folheio mais jornais e nao assisto telejornais. E o que vejo na net? Receitas de bolo. rs

    Bacio

  2. Ta aí um texto estupendo, um texto inteligente que leva à reflexão, com licença que o usarei em uma palestra que darei à jovens em fevereiro. Está no hall de minhas escritoras prediletas(puts gosto dessa palavra, me parece doce na boca, algo de saboreio, de fazer parte, do estar com). Beijocas

  3. Ô, se pode! Deve. Mas é uma época difícil. Se toda fala é ofensiva, a comunicação esbarra em hipocrisia. Se todo preconceito é expressão, é a educação que esbarra em barbarismo… Não tem mesmo certo e errado, o que existe, ou deveria existir, é bom senso, mas esse, ah, esse… não encontra unanimidade…
    Saudade de tempo pra prosa 😉
    Até!

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