a gente morre todos os dias… mas se esquece

A gente morre quando acorda. Morre de tédio, de preguiça, morre de mesmice, ou não, como apregoaria Caetano Veloso, com aquela voz de fruta sumarenta e lenta degustada em algum recanto nordestino. Tem pessoas que já morreram faz tempo. E nunca desconfiaram disso. Morrem de medo de encarar o medo, de colocar a coragem debaixo de um braço e o medo apoiado no outro braço e prosseguir caminhando, como ressaltaria Brecht.*

Por aí se inicia este estupendo texto de Graça Taguti. Eu não teria nada a acrescentar a ele. Trouxe-o aqui para sua apreciação porque estivemos conversando sobre tristeza e morte (e eu sei que andei meio melancólica); sobre como, às vezes, querem nos impor uma cara alegrinha a contragosto, como uma máscara de gesso. Parece que a tristeza anda meio démodé. E não é ela que sufoca, meu bem, são as máscaras. Este texto fala das nossas mortes diárias, quase imperceptíveis, devidamente justificadas e disfarçadas. Eu vi alguns dos meus defuntos ali e, confesso, já cheiram mal. A morte mesmo, aquela em que meu sopro de vida se desprenderia deste corpo precário que já está pedindo penico, é menos dolorosa, pude perceber. Embora não tenha volta, como se sabe: é o único mal para o qual não há remédio. Ao menos, é definitiva, não se reitera interminavelmente, como estas outras:

A gente morre de frio e de mentiras. De amor escondido e expurgado pela covardia. De afeto enrijecido e estanque. Da flor não manifesta num discurso que se pretendia doce. (…)

Muita gente morre de silêncio. Não joga para fora as fecundas cirandas do coração. Morre de ódio, de inveja. E finge que estes sentimentos, tão descivilizados e deselegantes, pertencem somente aos outros. De soberba, arrogância e interjeições também se morre. E ainda quem deixa a paixão morrer no sexo e faz amor sem prazer. Como quem come uma sobremesa de nariz entupido.

*Leia a matéria completa em: A gente morre todos os dias. Mas se esquece e levanta – Geledés

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20 comentários sobre “a gente morre todos os dias… mas se esquece

  1. Amiga Aurea, gostei muito do texto, agradeço-lhe por ele, mas gostaria de falar somente sobre a morte final, a morte material definitiva.
    Bom, prá mim, a morte é o único momento realmente perverso da nossa existência porque une despedida (de alguém com seu corpo, seu mundo e suas pessoas) e solidão (cada um a experimenta sozinho). Pra completar, como nascemos com o instinto da vida mais forte que o instinto da morte, seguimos, seguimos e seguimos até nos entregarmos a ela, resignadamente. Mas talvez tenhamos duas boas ‘notícias’: 1- ninguém sabe quando será o dia da sua morte, mesmo com um atestado de morte em mãos; e 2- só quem passa pela vida conhece o AMOR. Pense nisso e entregue-se a tudo de bom que conseguir realizar!

    • Nem sei por onde começar a responder esse seu comentário tão rico em conteúdo e humanidade. Não sei se são boas estas notícias, mas são fatos inegáveis; o que posso afirmar é que não pretendo me entregar resignadamente. Como diz um poema do Gullar:

      “Eu deixarei o mundo com fúria.
      Não importa o que aparentemente aconteça,
      se docemente me retiro.

      De fato,
      nesse momento
      estarão de mim se arrebentando
      raízes tão fundas
      quanto estes céus brasileiros.
      Num alarido de gente e ventania
      olhos que amei
      rostos amigos tardes e verões vividos
      estarão gritando a meus ouvidos
      para que eu fique
      para que eu fique

      Não chorarei.
      Não há soluço maior que despedir-se da vida.”

  2. … E o AMOR, Aurea, o AMOR (que eu bendigo, zelo, divulgo, respiro, patrocino…) é que é o o passaporte para o transcendente, o sobre-humano, o superior, o espiritual, se preferir.
    Acho que descobrir isso é a grande sacada da vida.

    • Ah, o Amor… este desertor! este corpo estranho expurgado junto ao pus do abcesso fundo da alma! este andarilho inquieto que não sabe permanecer! este elemento destoante da correira do dia!… será que ainda pode me salvar?

  3. ok meninas, há o definitivo, o transitório, o memorável, passageiro, há de tudo um pouco nessa experiência de quase morte que é viver. O pouco e o tudo se misturam, hum? Talvez (é a vista do meu ponto) nossa parte seja escolher entre um ou outro. Conselho? Escolham o muito.

  4. Querida Aurea e querido Mariel, confesso que me perdi um pouco nos seus últimos comentários, talvez porque eu tenha chegado agorinha da piscina (estão com inveja???) e meus ouvidos estão cheios d’água, não tô conseguindo me concentrar direito… chato, né???

    Apenas gostaria de deixar uma provocação pro Mariel (Poeta, se dentre o tudo e o pouco que há pra escolher, é pra se escolher o ‘muito’, vale também muito amor? E vale pra todo mundo ou só pra quem não for amador???) e um conselho pra Aurea, querida amiga, um ditado de Epicuro, ‘a quem pouco não basta, nada basta’, ou seja, totalmente ao contrário do que está dizendo nosso bom amigo, Mariel, contentar-se com menos é mais garantia de felicidade, Sabedoria milenar, acredita em mim… por favor.

    Bom sábado para os dois, que tantas alegrias me dão! Boa-tarde!!!

    • Bem, minha cara, minha educação católica já havia introjetado em mim os princípios estoicos da serenidade e aceitação diante da dor, daí para a busca moderada do prazer sugerida pelo sábio Epicuro é um pulo. Tem uma cena do filma “O juiz” em que o personagem, um homem sisudo e prático, provocado pelo filho sobre a vida após a morte, responde: “Está me perguntando se acredito em Deus? Sou um homem de 79 anos e um câncer em estágio terminal; que escolha eu tenho?” Você me sugere contentar-me com menos e, se você soubesse da missa um terço, eu te diria: “Que escolha eu tenho?”
      Mas não fique provocando o Mariel, que ele é do bem! Nem sempre nossas ideias conjuminam, mas o contraponto é sempre bem-vindo.
      Beijos aos dois…

      • Primeira parte: Não gostei da sua pergunta, não. Tô começando a ficar bastante preocupada. Mas com todo respeito que lhe tenho, sinto amor por você. Aceitaria a minha ajuda pontual e silenciosa
        Segunda parte: hahaha! Eu tô com o Mariel atravessado na garganta. Desde que eu li um artigo dele, cara, eu poria meu dedo em riste contra o seu nariz. Ele foi excludente com uma parte da população mundial. Que bom que a gente não se encontra nunca, senão nem sei…
        Terceira parte: posso parecer meio maluca, mas minha religiosidade é bem forte. Aceita a minha ajuda, invisível

  5. Minha cara, eu morro de odio varias vezes ao dia e de amor tambem porque em mim,como semore digo, uma coisa depende da outra. Eu ja perdi a confa de quantas vezes eu morri… mas renasci feito Fenix, ainda pior que antes. rs
    E vamos em frente, ate o exato momento em que todas as coisas se mostrarem findas. Boa semana para nos. Bacio

  6. Ahh porra, que saudade que estava de te ler. Ler você me redime, me faz ficar em paz por não ter esse apego todo a uma existência meio capenga. É bom saber que há mais pensamentos sinceros assim. Bom demais!! Visão, Aurea.

    • Minhas deusas! Que garota (deliciosamente) desbocada! E que responsabilidade essa de redimir uma moça já tão cheia de mins-e-tals! O que me resta? Está decidido: preciso soltar a voz (os dedos) e berrar meus pensamentos (supostamente) sinceros! E tenho dito! (e ninguém jamais me obrigou a usar tantos pontos de exclamação!)

      • Adoooooooooooooro!! Os pensamentos, a forma-escrita e (por que não?) as exclamações. Você me ajuda a brindar intensidades. Louvada seja!hehehe

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