Bom dia, flor do dia! (ou de como, numa manhã qualquer, conheci uma suicida)

Seis e quinze da manhã, passei pela roleta do ônibus e, sabe-se lá por que cargas d’água, fui me sentar ao lado dela. A aleatoriedade travestida de arbítrio, porejando teleologia, talvez seja o truque mais sutil  e mais besta que a vida traz na manga. Era enfermeira no hospital onde eu trabalhava na lavanderia. Eu fazia faculdade à noite e não queria conversa àquela hora; ela era de poucos amigos, vai ver foi isto. Nesta época, eu não passava de uma passageira desavisada; você escolhe o assento ou esbarra em alguém e todas as cores do seu dia, que ainda eram expectativa, podem se derramar no seu colo e virar uma mancha indefinida. Resolvi emoldurar e colocar na parede, assim mesmo, junto aos demais borrões. Se há alguma epifania, ou chame do que quiser, já adianto aqui, pra não ficar brincando de enigma com você; questão de sanidade, que eu sempre tentei desesperadamente manter, trata-se de evitar certos pensamentos, tanto quanto possível (caso contrário, periga a gente sair à rua pelado com o dedo no cu cantando o Hino Nacional ou, pior, suicidar-se ou tentar ser escritor, o que dá no mesmo), são eles: a morte e seus meandros; a noite e seus mistérios; a miríade de micro-organismos à nossa volta; o modo como alguns alimentos são produzidos (acrescentei por conta) e os detalhes sórdidos da intimidade alheia. Pra mal dos meus pecados, eu tinha retirado bruscamente uma das mãos da barra de apoio do banco da frente e levei ao rosto pra conter um espirro e tive de ouvir uma preleção sobre a quantidade imensurável de bactérias que proliferavam ali, onde todos põem as mãos, sem falar nas maçanetas e etecétera. Um quadro horrendo da conspiração invisível da natureza pra nos esculhambar e fragilizar. Passamos para a mudança brusca de temperatura e, não sei bem como, chegamos às baratas; ah, sim, tinha esfriado à noite e ela mencionou que, mesmo assim, dormia com o ventilador direcionado para seu rosto por causa das cascudas: estes insetos asquerosos têm o hábito de introduzir suas anteninhas tremelicantes nos orifícios dos nossos narizes enquanto dormimos, você sabia? Descemos do ônibus e seguimos para o vestiário, ela dizendo, surpreendentemente confidente, que tinha uma filha, mas não tinha marido ou namorado: mulher é latrina, o homem faz lá suas necessidades e pronto. Vestiu o uniforme branco (era bonita! será que ela dava seu jeito?) e me deixou, perigosamente sozinha, sem um “até logo” e nunca mais nos vimos. Uma quase estranha a lançar seus gris e toda a escatologia sobre minha existência já meio confusa! Que confluência estranha, que simbiose lascada foi aquela? Segui com urgência pelo corredor mal iluminado, ainda amarrando o avental ao passar em frente ao necrotério, quase correndo. Precisava do burburinho da lavanderia e sua lógica: da área suja para a área limpa, desinfecção, calor, claridade. Na amanhã seguinte, atravessei a roleta pronta a forçar o movimento contrário e esparramar meu otimismo bobo ao longo do trajeto. Ia espetá-la, direto e reto, com meu melhor “bom dia”. Mas ela devia estar de folga ou de licença. Dias depois, encontrei os funcionários da lavanderia estarrecidos, a calandra parada, os lençóis amontoados, à espera. A enfermeira, aquela mesma, tinha se enforcado com um cinto em um hotel de beira de estrada; a filha, ao lado do corpo da mãe, escapou por pouco; ao que parece, ao retirar o artefato do pescoço da criança, que julgava morta, para usar em si mesma, a moça acabou por salvar inadvertidamente uma vida. Um raiozinho de luz sobre seu último aceno, um subterfúgio? Eis aí. Espero não ter manchado sua manhã, já que sou quase uma estranha. Bom dia!

a moça errou a mão

Colunista de um site de notícias, sob a descrição “diz o que pensa”, a moça deve estar acostumada a ser mal compreendida. Afinal, para angariar inimigos, afirmou alguém, basta dizer o que se pensa. Foi o que ela (supostamente) fez, em tom jocoso (e aí é que o angu desandou):

Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado.

(…)

Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela.

O texto humorístico é traiçoeiro. A fronteira entre a gargalhada e o repúdio está ali, ali. E, nestes tempos em que a liberdade de se cuspir o caroço está na pauta das discussões mais acirradas, a moça se arriscou. A retratação, em forma de advertência, não sei se será convincente, mas faz pensar:

ATENÇÃO:

Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa.

Que atire a primeira pedra quem nunca fez uma piada no tom ou no momento errado e ficou “com cara de cachorro que peidou na porta da igreja”. Expressão popular, aliás, de uma sapiência incrível: o problema do cachorro (aqui substituindo qualquer ser pensante que pudesse se ofender) é o local (pô, na porta da igreja?!) e não o ato em si. Estamos, talvez, em tempos de repensar o que Kant chamava de uso público e privado da razão. O problema não é o que dizer, mas onde e como. Suponhamos que a coluna da moça fosse mesmo humorística e seus leitores, acostumados com o tom, conseguissem se divertir com o texto. Tudo bem, certo? Hmmmm, não sei não. Costumo dizer que tudo ficaria muito chato se acorrentássemos o humor ao politicamente correto. Mas, de qualquer modo, nenhuma outra situação comunicativa expõe melhor nossos preconceitos do que nossas piadas. Veja:

Um negro rico, saindo em seu carro de luxo, viu, pichada no muro de sua mansão, a frase: “Aqui mora um negro”. Não se fez de rogado. Mandou que um empregado pichasse, embaixo, a frase: “Mas sou rico!”. No outro dia, ao sair, deparou-se com outra pichação: “Mas é pobre!”

Você pode contar esta “inocente” anedota em um churrasco inter-racial (e, veja, qualquer churrasco neste país, com mais de três pessoas presentes, será provavelmente inter-racial) e rir a vera, enquanto enche o copo de cerveja do seu amigo negro. É possível que o ensejo permita uma conversa amena sobre preconceito e tal, que quebre tensões (a diversidade social em que estamos inseridos pode colocar no mesmo ambiente um negro, um nordestino, um homossexual e um neo-nazista). Mas, duvido que, um milésimo de segundo antes da gargalhada geral, não reine uma sensação do tipo: iiiiih, fedeu!

Pois, foi assim com o texto da moça em questão. Depois, eu consegui até rir e me ver (pobre membro do proletariado), mas só depois do “Fala sério!”.

Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos. O avanço da medicina – que me amedronta a cada dia porque eu não quero viver 120 anos  – conquistou o coração dos financeiramente prejudicados. É uma espécie de glamourização da doença. Faz o exame, espera o resultado, reza para que o nódulo não seja cancerígeno. Conta para a família inteira, mostra a cicatriz da cirurgia.

A moça errou a mão. Eu erro a mão. Você erra a mão. Ser engraçado é para poucos e em situações específicas. Ou estamos muito melindrosos? Hum?

Leia o texto e analise por si mesmo, se quiser aqui.

Je suis Charlie; Madame Bovary c’est moi; eu sou você…

Uma frase repetida à exaustão está sujeita a se esvaziar, a ir se esgarçando feito o tecido de uma bandeira esbatida. Assim, entre o noticiário e a refeição, você já está anestesiado para o apelo gasto e repetitivo e já se comove mais com o que falta em sua lista de compras.  Filtro de café, pelo-amor-de-deus!, e papel higiênico, como pode? Um não substitui o outro! Suas micro-tragédias parecem mais relevantes, a esta altura. E, depois da comoção inicial, você começa a aceder aos arautos da sabedoria: ora, liberdade de expressão não justifica a intolerância religiosa.

Eu, cá com meus botões, enquanto corto cebola usando técnicas avançadas anti-lacrimejamento, respiro fundo e resisto: não, a violência não produz legitimidade! Então, quem sou eu? De que lado eu estou? Não sei não, desconfio de que a medida da minha humanidade esteja na minha capacidade de ser o outro. Não um só, um único lado, mas o diverso. E não acabo de inaugurar ideia alguma. Jesus Cristo já havia apelado para a empatia: “quem dentre vós não tiver pecado algum”…

Gustave Flaubert, ao ser questionado sobre o escândalo provocado por sua personagem, que expunha a hipocrisia reinante na sociedade da época (da época???), disse, astutamente, ao tribunal: “Madame Bovary c’est moi” (Madame Bovary sou eu.) Convenceu o tribunal, mas não a sociedade, que não queria se ver no retrato cinza.

O que a personagem que deu início ao romance realista tem a ver com os atentados ao jornal francês, comigo e com você? É que eu sou Charlie, mas também sou o imigrante muçulmano, a minoria (religiosa, racial, sexual e o escambau!). Eu sou você. E, se você aceitar minha lógica, você sou eu. E nós somos Madame Bovary, personagens controversos, nem bons nem maus, apenas humanos e sujeitos a erros. Não iguais. Nunca. Deus me livre e guarde da chatice de um mundo homogeneizado! Mas, sei lá, capazes de andar do mesmo lado da rua sem supostas superioridades, sem agressão. Pode ser?

a gente morre todos os dias… mas se esquece

A gente morre quando acorda. Morre de tédio, de preguiça, morre de mesmice, ou não, como apregoaria Caetano Veloso, com aquela voz de fruta sumarenta e lenta degustada em algum recanto nordestino. Tem pessoas que já morreram faz tempo. E nunca desconfiaram disso. Morrem de medo de encarar o medo, de colocar a coragem debaixo de um braço e o medo apoiado no outro braço e prosseguir caminhando, como ressaltaria Brecht.*

Por aí se inicia este estupendo texto de Graça Taguti. Eu não teria nada a acrescentar a ele. Trouxe-o aqui para sua apreciação porque estivemos conversando sobre tristeza e morte (e eu sei que andei meio melancólica); sobre como, às vezes, querem nos impor uma cara alegrinha a contragosto, como uma máscara de gesso. Parece que a tristeza anda meio démodé. E não é ela que sufoca, meu bem, são as máscaras. Este texto fala das nossas mortes diárias, quase imperceptíveis, devidamente justificadas e disfarçadas. Eu vi alguns dos meus defuntos ali e, confesso, já cheiram mal. A morte mesmo, aquela em que meu sopro de vida se desprenderia deste corpo precário que já está pedindo penico, é menos dolorosa, pude perceber. Embora não tenha volta, como se sabe: é o único mal para o qual não há remédio. Ao menos, é definitiva, não se reitera interminavelmente, como estas outras:

A gente morre de frio e de mentiras. De amor escondido e expurgado pela covardia. De afeto enrijecido e estanque. Da flor não manifesta num discurso que se pretendia doce. (…)

Muita gente morre de silêncio. Não joga para fora as fecundas cirandas do coração. Morre de ódio, de inveja. E finge que estes sentimentos, tão descivilizados e deselegantes, pertencem somente aos outros. De soberba, arrogância e interjeições também se morre. E ainda quem deixa a paixão morrer no sexo e faz amor sem prazer. Como quem come uma sobremesa de nariz entupido.

*Leia a matéria completa em: A gente morre todos os dias. Mas se esquece e levanta – Geledés

Amor e cheiro

Estou saboreando (veja que não disse ‘devorando’) o suculento “Ishq e Mushq: Amor e Cheiro”, de Prya Basil. É possível que eu não termine a leitura, indisciplinada e inconstante que sou… Adoro protelar os desfechos, não por que os anseie: odeio desfechos! Em verdade, vos digo: nenhuma estória realmente termina. Por isso gosto de contos em geral e de romances contemporâneos: ambos, feito donzelas sapecas e astutas, te deixam na mão, com aquela cara de “e aí? o que vem depois?” Prefiro mil vezes, super prefiro esta sensação àquela outra dos finais felizes (ou nem tanto… dramáticos, de qualquer modo…); e, de mais a mais, um naco maior pode provocar um engasgo fatal e pimba, lá se vão as perspectivas.

Pois bem, o romance se inicia com as palavras da mãe de Sarna, a protagonista, que por si só, dão muito o que pensar: “Lembre-se, existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e Mushq. Amor e cheiro.”

E Sarna parece ter muito a esconder. Madame Bovary já há muito tempo libertou as protagonistas  da abjeta obrigação de serem virtuosas. Mas não das suas lutas interiores (também nossas); nem das aparências (idem, amém nós todos), meu pai do céu! Assim, a jovem indiana tenta impregnar seus dias com o cheiro da comida que prepara, a fim de amenizar as dissidências da alma:

Enquanto criava essas variações caleidoscópicas, a ideia de que talvez fosse possível alterar as lembranças lhe ocorria com frequência. Por meio de sua culinária, descobria que cada ingrediente pode ser transformado e que quase todo sabor pode ser mascarado. A princípio lentamente – e aos trancos -, ela começou a desconstruir as lembranças enquanto construía as receitas. Sarna então maquinava novos sabores e histórias. (…) Sob densos véus de aroma de tempero, enganava suas saudades da Índia. “Existem apenas duas coisas que não podemos esconder: Ishq e Mushq: Amor e Cheiro”. As palavras de Bibiji lhe vieram e ela sorriu. Sentindo-se já mais inteligente do que sua velha mãe, pensou que, na verdade, talvez fosse possível esconder Ishq no Mushq, pois Mushq pode ocultar muitas coisas.

(Basil, Prya. Ishq e Mushq: Amor e Cheiro. São Paulo: Lis gráfica e editora, 2008. P. 39)

Se tiver oportunidade, delicie-se…

Prefácio

Este blog deveria se chamar “Meio livro me basta”. Inicio diversas travessias, sem concluir nenhuma delas. Pode chamar de indisciplina, preguiça, ou, indo mais fundo, de medo incontrolável de desfechos. Minha mãe ralhava comigo em terceira pessoa: “ela deixa tudo pela metade!”, como se lamentasse, pra si mesma, uma maldição. E assim tem sido. Caiu-me nas mãos, recentemente, o Rubem Alves, “Variações sobre o prazer…”; lancei-me sobre ele com a mesma voracidade com que me atiro a toda promessa de boa leitura que provavelmente não levarei a termo. Não vou terminar, eu sei; não sou boa em términos… deixei a porta entreaberta, mas, antes, suguei das primeiras páginas algo pra mim… era ainda o prefácio (crê nisto?):

Senti, então, que não gostaria que aquilo que eu havia escrito ficasse enterrado. Afinal de contas, o que eu escrevo é parte de mim mesmo. Mas sabia, ao mesmo tempo, que meus esforços para terminar o livro seriam inúteis. Brinquei, então, com a ideia de publicar o livro do jeito que estava, não terminado. Nisso ele se pareceria com a vida. A vida nunca é terminada. Ela termina sempre sem que tenhamos escrito o último capítulo.

(Rubem Alves, Variações sobre o prazer…)

Vida-prefácio: os capítulos derradeiros são sempre post mortem. Compostos à revelia do personagem: você não é Brás Cubas, querida; e mesmo Brás Cubas, coitado, era só uma incursão realista do casmurro Machado. Mas a vida não é romance… O que dirão de você, o que ficará posto a seu respeito… ah, alma minha, já não lhe pertence mais… tão boazinha, coitada, trabalhadeira, amorosinha, risonha, meio inconveniente, meio explosiva, tadinha… meio? oh, tenham dó… eu fui… eu tentei… eu nunca quis ser meio, quis ser inteira… obus de morteiro, incandescente, iridescente… agora, olha só pra mim… uma menina inacabada! “não dá pra ter tudo”… vai ser gauche no inferno, vai ser puta transcendente, vai ser madre respeitável, vai ser enfim o que era pra ter sido. Sobretudo, sem nenhum arrependimento. Seria inútil: seja prática uma vez na vida! Merda!

A estrada morta

Dos livros que estou a meio do caminho, em intermitente estado de leitura, tem “Terra Sonâmbula”, do Mia Couto. É que alguns livros são assim: você vai entrando, entrando, como quem decide atravessar um rio. Você sente a corredeira roçar seu tornozelo e tenta se familiarizar com o lodo no fundo, a temperatura da água e a força com ela tenta te arrastar. Depois a torrente caudalosa lambe suas pernas como milhares de serpentes. Pode ser que, lá pelas tantas, o temor te domine e você ache que não dá pé; ou já seja quase hora do almoço e a aventura não se justifique naquele momento – melhor voltar para a margem inicial e recomeçar outro dia. Afinal, o rio sempre estará lá. De modo que a “Terra Sonâmbula” se tornou pra mim uma perene promessa adiada de travessia; que começa assim:

Primeiro capítulo

A ESTRADA MORTA

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. (…)

Por falar em olhos faiscantes

Era uma aula de Literatura Portuguesa e eu, no meu invariável atraso, tentei me ajeitar sem alarde. Deixei a bolsa escorregar do meu ombro para o chão; depositei o caderno e as folhas com as cópias dos textos sobre a minúscula mesa, enquanto me encaixava na cadeira fixa a ela. O Professor Henrique D’Ávila levantou os olhos rapidamente e retomou a leitura dos poemas, com seu sotaque de um outro país de Língua Portuguesa. Acho que, felizmente, minha interrupção não foi tão brusca a ponto de trazê-lo à tona: encontrava-se naquele estado que Affonso Romano de Sant’anna chamou de “o incêndio de cada um”. Apenas seu olhar parecia ainda a custo manter algum contato com aquela sala de aula. E que contato fulgurante! Seus olhos miúdos espargiam fagulhas a cada pequena pausa. Uma delas veio dependurar-se em mim, a certa altura…  no primeiro verso da segunda estrofe (em nada, o momento ideal para uma pausa mais demorada como aquela; e, no entanto, as palavras ‘tudo’ e ‘maior’ alçaram uma magnitude inesperada e me elevaram a um outro patamar, para além da minha comoção contida) e eu não pude mais atinar para o desfecho do poema… apenas o nome da autora, pronunciado com reverência devota, ao final: Florbela Espanca. Aqui segue a parte de que me lembro (procure ler na íntegra, meu bem, e não me julgue, eu estava suscetível…):

O meu mal

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, e caravela, e dor!

Fui tudo que no mundo há de maior,

(…)